Costa Concordia: armador afirmará ser “vítima” em juízo

A companhia Costa Crociere, propietária do navio de passageiros “Costa Concordia”, naufragado na Itália no último dia 13, irá se apresentar como vítima em eventual processo relacionado ao acidente.

Segundo Marco de Luca, advogado da armadora, a intenção se justifica “porque, para além da tragédia e do drama humano, a empresa sofreu um enorme dano”. Ele também condenou o comportamento do comandante Francesco Schettino, acusado de ter desviado o navio de sua derrota sem autorização, e garantiu que a companhia não vai assumir a defesa do capitão.

Críticas de comandantes afundam ainda mais Schettino mas não exculpam armador

A situação do capitão do Costa Concordia não para de se complicar. Ontem, o comandante do Costa Serena, Roberto Bosio, que estava a bordo do navio acidentado e é apontado como um dos heróis do salvamento, falou pela primeira vez sobre o acidente.

“Apenas um desgraçado teria deixado todos aqueles passageiros a bordo. Foi a experiência mais horrível da minha vida, uma tragédia, uma dor no coração que carregarei comigo para sempre. Eu só quero descansar e esquecer”, disse Bosio. “Não me chamem herói. Só cumpri com meu dever, o dever de um capitão — na verdade, o dever de um homem normal.”

Se um comandante quer “descansar e esquecer”, imagine-se o passageiro comum. Não é de admirar que vários considerados desaparecidos foram depois localizados longe do cenário do desastre — em pelo menos um caso, na Alemanha.

Já Mario Palombo, comandante aposentado da Costa, disse que sempre teve reservas em relação a Schettino: “É verdade, ele foi meu segundo-em-comando, mas era exuberante demais; um temerário. Por mais de uma vez, eu tive de colocá-lo no lugar dele.”

Semelhante avaliação, que revela uma personalidade pouco inclinada a tomar o caminho mais seguro, como seria de se esperar de um comandante com mais de 4 mil pessoas a bordo, deveria ter chegado ao conhecimento da Costa Cruzeiros. Neste caso, a ascensão de Schettino ao comando, quanto mais ao de um navio como o Costa Concordia, seria provavelmente problemática.

Aqui se abre mais uma linha de investigação, destinada a descobrir se a armadora italiana sabia ou tinha como saber destas inclinações de Schettino e a aferir o real grau de eficácia dos programas de treinamento e promoção da Costa.

Outro aspecto que merece atenção diz respeito ao comportamento da equipe de navegação pouco antes do acidente. Não há registro de que tenha havido questionamento das intenções ou ações do capitão durante a fatal aproximação da ilha de Giglio. Isto permite pôr em questão os procedimentos operacionais adotados pelo navio em situações de maior risco náutico.

Embora nada exculpe o comandante por suas ações reprováveis, não se deve ignorar que ele é também representante do armador e da sua cultura, e que ambas devem ser examinadas com cuidado, se há interesse verdadeiro na segurança da navegação e respeito pelas vidas ceifadas e transformadas por este naufrágio.

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