Costa Concordia: descoordenação e mentiras

O minuto-a-minuto do desastre do “Costa Concordia“, registado pela Capitania do Porto de Livorno, em Itália, revela a descoordenação no socorro aos passageiros e as tentativas desesperadas da tripulação em negar o naufrágio às autoridades.

O diário, publicado esta quinta-feira pelo jornal italiano “La Repubblica“, revela o registo minuto-a-minuto da capitania do Porto de Livorno do naufrágio do “Costa Concordia”.

22.06 horas – Primeiro alerta – As autoridades contactam a Capitania do Porto de Livorno. A mãe de uma passageira que segue a bordo do “Costa Concordia” informa que houve um problema no barco da Costa Cruzeiros. Foi sentido um forte choque e pedido aos passageiros que vestissem os coletes salva-vidas. O primeiro aviso de que alguma coisa podia estar mal a bordo chega às autoridades através de uma passageira e não através da tripulação.

22.14 – É só um apagão – A Capitania do Porto de Livorno entra em contacto com o “Costa Concordia” para confirmar se está tudo bem. Um oficial explica que houve um apagão, mas que em breve estará tudo resolvido. O tripulante nega ter havido um rasgão no casco e que tenha sido pedidos aos passageiros que vestissem os salva-vidas.

22.16 – O barco-patrulha da Guarda Alfandegária oferece-se para se aproximar do barco. A Capitania aceita. Este barco, o G 104, será muito importante nas operações de resgate.

22.17 – A dúvida. A Capitania expressa as suas dúvidas sobre o simples apagão do “Concordia”. “Pode tratar-se de uma outra situação”, lê-se no documento.

22.26 – Assume-se um problema. Nova chamada ao “Concordia”. desta vez, atende o comandante Schettino, que finalmente admite haver um buraco aberto no lado esquerdo do casco. Segundo o comandante, não há feridos e só precisam de um reboque. Apesar das garantias do comandante, a capitania ordena a todos os barcos na proximidade que se dirijam para perto do navio.

22.44 – “O barco encalhou”. O G104 chega à zona do acidente e aumenta o nível de alarme, o barco encalhou sobre o lado esquerdo. Neste momento, os passageiros começam a ser retirados e a operação de evacuação está no apogeu. No entanto, não há informação de pessoas a saltarem para o mar.

22.45 – “Não é verdade, navegamos”. O comandante Schettino nega: “O barco flutua”, afirma, acrescentando a intenção de aproximar-se da costa e lançar a âncora.

22.48 – Emergência! A Capitania pergunta ao “Concordia” se quer ordenar a evacuação. A resposta que recebem é que “não, ainda estão a avaliar”. As autoridades iniciam os preparativos para receber os passageiros na ilha de Giglio.

22.58 – “Abandonem o barco.” Dez minutos após a “avaliação”, Schettino ordena a evacuação utilizando os botes salva-vidas do “Concordia”.

23.23 – “Estamos inclinados” A partir do barco, avisa-se que há uma grande inclinação a estibordo e pedem algum tipo de reboque. A operação não é possível neste momento do naufrágio, segundo os documentos revelados esta quinta-feira.

23.37 – “Ainda há 300 passageiros a bordo”. Schettino contacta novamente a Capitania para informar que há ainda 300 passageiros por evacuar.

00.05 – Náufragos. A Capitania tenta entrar novamente em contacto com o barco sem êxito. Ninguém responde. Na meia-hora seguinte, o diário dá conta da existência de pessoas na água, tentando chegar à costa com dificuldade ou sendo resgatados pelos barcos que ajudam na operação de salvamento.

00.34 – Schettino admite estar num barco salva-vidas a estibordo e comunica que há “três passageiros na água”.

00.36 – Idosos e crianças ainda estão no barco. A patrulha de resgate do G104 avisa com urgência que há ainda cerca de 80 pessoas no navio, entre elas idosos e crianças, presos e a tentar sair do “Concordia”.

00.42 – “Volte ao barco!”. Schettino informa que todos os oficias estão com ele num bote salva-vidas. O comandante De Falco, a partir da Capitania, ordena-lhe aos berros que volte ao “Concordia” para coordenar a operação de resgate. Ao mesmo tempo, as equipas de resgate calculam que outras 100 pessoas estejam ainda a bordo e estuda-se a possibilidade de utilizar um helicóptero para as evacuar.

01.46 – De Falco insiste. Quase uma hora depois da ordem para voltar para o barco, não há notícia de Schettino aos comandos do Concordia. De terra, o comandante De Falco insiste em localizar a Schettino.

02.53 – “Schettino está a caminho do porto”. A Guarda Alfandegária, a partir da patrulha no G104, informa que o barco salva-vidas do comandante está muito perto de chegar ao porto da ilha.

03.05 – As primeiras vítimas – As equipas de resgate informam que dentro do barco há já três mortos e cinco feridos.

03.17 – Schettino chega a terra firme e é detido pela polícia.

03.56 – Com o comandante foragido, o drama continua a bordo do “Concordia”. As equipas de resgate lançam novo alerta, cerca de 50 pessoas estão na popa do navio a tentar fugir.

04.31 – De Falco ordena que ‘devolvam’ o barco um dos oficiais que fugiram com o comandante do “Concordia”.

04.46 – A evacuação do “Costa Concordia” é dada como terminada, apesar de se advertir para a necessidade de fazer uma inspecção cuidada para comprovar que não há ninguém no “Concordia”. Costa Cruzeiros fornece pela primeira vez a lista de passageiros: Um total de 4754 pessoas, entre passageiros e membros da tripulação.

Fonte: http://www.jn.pt/PaginaInicial/Mundo/Interior.aspx?content_id=2251726&page=-1

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