HISTÓRIAS DO MAR: Ele permaneceu a bordo…

No meio do Atlântico, o projetor de um navio que passava dispara a pergunta em Morse:

— Que navio?

O comandante do cargueiro responde:

Flying Enterprise II

Um instante depois, as luzes do grande Queen Elizabeth iluminam o que há de oceano entre os dois.

Esta extraordinária saudação náutica foi descrita para mim há quase meio século atrás pelo capitão-de-longo-curso Henrik Kurt Carlsen, o marítimo a quem ela se dirigiu. Mais de dez anos antes daquele encontro, Carlsen optara por permanecer a bordo de um navio ameaçado pelo naufrágio, o Flying Enterprise, em meio a um mar furioso, depois de ter ordenado à tripulação que abandonasse a embarcação. Por duas semanas, boa parte do mundo acordava de manhã e ligava o rádio para saber se o comandante, nascido na Dinamarca, insistia em continuar sua singradura solitária.

Carlsen foi uma das primeiras pessoas que entrevistei para o jornal em que comecei a carreira, o Perth Amboy Evening News, em Nova Jersey, nos Estados Unidos. Ele viva com a família em uma habitação modesta em Woodbridge, na área de circulação da publicação. Fazia muitos anos que não pensava nele, até que o Costa Concordia emborcasse em águas tranquilas ao largo da costa da Itália em janeiro.

O navio de Carlsen fora apanhado pela pior tempestade atlântica dos últimos cinquenta anos, pouco depois do Natal de 1951. Ao largo da costa da Inglaterra, o cargueiro de 6.711 toneladas rachou ao meio após ser atingido por uma estrondosa onda. Enquanto embarcações de resgate aguardavam, o comandante, então com 37 anos, deu a ordem de abandono aos quarenta tripulantes e dez passageiros a bordo, a 29 de dezembro de 1951. Depois, de volta ao seu castigado camarote, disse no rádio que ficaria a bordo “enquanto o navio continuasse flutuando”. Se ele deixasse o cargueiro, poderia ser reivindicado por qualquer empresa de salvatagem que pusesse um homem a bordo.

A situação se deteriorava constantemente: ondas de até vinte metros castigavam o barco ferido, que poderia, Carlsen sabia, afundar a qualquer momento. Ele utilizava um rádio improvisado para se manter em contato com navios nas proximidades, revirou o navio adernado em busca do que houvesse de comida e água e ainda continuou a escrever o diário de bordo. Na metade do suplício de duas semanas, Carlsen ganhou a companhia de um marinheiro de um rebocador de resgate que havia ido a bordo para ajudá-lo a receber o cabo de reboque.

Os dois estavam a 37 milhas náuticas (68 km) do porto britânico de Falmouth quando o navio, já adernado quase 90 graus e a embarcar água pela chaminé, finalmente se rendeu, em 10 de janeiro de 1952. Carlsen e o outro marinheiro pularam no mar e foram resgatados pelo rebocador.

Deprimido e exausto até a medula, o comandante do agora perdido Flying Enterprise ficou surpreso quando o rádio do rebocador informou que havia uma multidão a aguardar por ele no píer em Falmouth. “Pensei que estavam brincando”.

Mas uma multidão estava lá, sim, e haveria mais nas semanas e meses posteriores: desfile com chuva de papel picado em Nova York, convites da realeza e numerosas cerimônias de premiação, incluindo uma medalha por heroísmo concedida por ato especial do Congresso norte-americano. Quando conversamos, Carlsen se recusou a fazer de seu feito algo épico:

— É muito simples. Eu tinha assinado um contrato. Era dever meu conduzir o navio pelo mundo. Teria sido moralmente errado deixá-lo.

Ele também considerou moralmente errado lucrar extraordinariamente com o cumprimento de seu dever. Segundo relatos, ele recusou uma oferta de US$ 250.000 do British Daily Express — uma montanha de dinheiro, em 1952 — por uma exclusiva e outra de US$ 500.000 de Hollywood. “Eu não quero que a tentativa honesta de um homem do mar de salvar seu navio seja usada para propósito comercial algum”, teria dito Carlsen.

Uma recompensa que ele aceitou alguns meses depois do naufrágio foi o comando de um navio mercante maior, o Flying Enterprise II. Na sua primeira viagem, uma volta ao mundo, o comandante foi alvo de recepções oficiais em cada um dos portos em que escalou, dos Açores ao Mar da China.

Carlsen passou o resto da sua vida no mar. Após sua morte, em 1989, ele foi sepultado nas águas onde o Flying Enterprise havia feito sua escala final.

A certa altura de nossa conversa, ele parecia confuso com toda a agitação feita em torno dele, mas acabara de perceber, segundo disse, que a aventura dele alcançara um simbolismo que tinha importância. “Quero crer que a juventude da América — e do mundo — tenha aprendido uma lição.”

— Que lição?

Carlsen pensa por um instante, e responde:

— Fazer o que se deve fazer.

Anui com a cabeça, e repete:

— Fazer o que se deve fazer.

Assim falou o velho lobo-do-mar.
Tradução livre de http://www.khaleejtimes.com/DisplayArticle08.asp?xfile=/data/opinion/2012/April/opinion_April36.xml§ion=opinion, de autoria do escritor e jornalista Abraham Rabinovitch.

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