EUA | Uma tragédia, três lições

Publicado originalmente no site Blog Mercante em 14 de maio de 2012

Acabo de ler uma matéria do jornal norte-americano The Philadelphia Inquirer  que me lembrou de um desastre e trouxe à tona, talvez sem querer, um par de lições sobre a boa marinharia no século 21.

Em 7 de julho de 2010, os turistas húngaros Dora Schwendtner, de 16 anos, e Szabolcs Prem, de 20, perderam a vida depois que um conjunto rebocador-barcaça atingiu a embarcação anfíbia de turismo onde eles e 35 outros passageiros, mais três tripulantes, estavam — à matroca.

O acidente, deixam claro os depoimentos reproduzidos por Miriam Hill e Troy Graham, poderia ter sido evitado com providências simples. Darei destaque a três.

Primeira lição: se você está em serviço no passadiço e surge uma emergência pessoal, peça ajuda a um colega. Esta era a política da empresa K-Sea, operadora do rebocador do qual Matthew Devlin era imediato e oficial de serviço naquela tarde.

Alguns minutos antes do acidente, Devlin recebeu um chamado no telefone celular (que, aliás, ele não deveria utilizar quando em serviço no passadiço): seu filho de 5 anos, que estava sofrendo uma cirurgia de rotina, teria ficado sem oxigênio por oito longos minutos. A partir daí, inicia-se uma troca frenética de ligações entre o imediato e seus familiares. Como resultado, Devlin ausentou-se, em espírito, do passadiço, e esta ausência custou a ele sua liberdade.

Um trecho do depoimento dele deixa claro quão pequena era a distância que era necessário vencer para evitar a pena de um ano por homicídio culposo:

Promotoria: A que distância o camarote do comandante estava de onde você estava?

Devlin: Dez pés [Três metros].

Promotoria: Você poderia ter chamado o capitão facilmente?

Devlin: Se eu estivesse pensando com clareza, sim.

O estresse reduz a consciência que temos de onde estamos e do que fazemos. Uma das consequências é que passamos a operar no “piloto automático”, repetindo escolhas e caminhos já experimentados e familiares. Mas um detalhe desmontou a familiaridade da situação: havia um barco à deriva no caminho.

Terminada a tormenta, quando Devlin se deu conta, o filho estava bem; ele, não mais.

Segunda lição: se você acha o colete inconveniente, experimente morte, sofrimento e suspensão. Do lado do barco anfíbio, falhas também houve, e importantes. Uma das mais graves: o comandante, mestre Fox, só pediu aos passageiros que colocassem os coletes cerca de 12 minutos depois de o barco ter ficado à matroca — e momentos antes do abalroamento. O depoimento dele lança luz sobre a razão: “Eu não precisava de ninguém desmaiando ou sofrendo intermação ou outro problema causado pelo calor.”

Esta atitude em relação ao uso de coletes é desgraçadamente muito comum. Ainda há pouco, por ocasião da passagem da Volvo Ocean Race por Itajaí, vi um sem-número de pessoas sem colete, inscientes de que, de um momento para o outro, elas podem se ver lançadas ao mar. Mas isto, claro, só acontece com os outros.

O fato é que aconteceu ao mestre Fox. E o descuido com os coletes dos passageiros pesou na decisão da Guarda Costeira de suspender-lhe a licença profissional por cinco meses.

Terceira lição: só porque algo dá certo, não significa que está certo. Em termos gerais, falar no celular durante a navegação não está certo.  Deixar de vestir o colete, também não. Mas, enquanto não ocorre algo realmente sério, vamos pegando atalhos, simplificando indevidamente procedimentos, relaxando. E como vai dando certo, seguimos fazendo. Isto, claro, até que o acidente invada nossas vidas pelas brechas que deixamos, crentes de que a desgraça não poderia jamais ser tão fluida e insidiosa, como foi para Devlin e Fox.

É verdade que acidentes acontecem mesmo que se faça tudo o que é certo fazer. Contudo, a minha experiência mostra que é muito mais provável que algo de ruim aconteça quando fazemos algo errado só porque dá certo.

Em resumo, a tragédia da Filadélfia é mais um caso no qual a soma de todos os equívocos desaguou em perda total e irreparável.

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