AQUAVIAS BRASIL: O caminho de Roterdã e o analfabetismo marítimo

Então, segundo me diz o Estadão de hoje, está decidido: queremos ser como Rotterdã.

O objetivo da presidente Dilma é direto, e repetido por quase todos os técnicos do governo envolvidos com as medidas: igualar a operação dos portos brasileiros à dos principais do mundo, como Roterdã (Holanda).

Isso deve acontecer em todos os sentidos – tributários, custos com mão de obra, infraestrutura básica e modelo gerencial.

Faltou lembrar o que considero o mais importante de todos os problemas: o do conhecimento. E, neste aspecto, penso que o Brasil deixa a desejar.

Vamos às evidências.

Diz a matéria que técnicos “estimam que a mão de obra representa 50% do custo portuário”.

Como a reportagem silencia sobre a composição deste custo, é preciso adotar uma definição operacional de “custo portuário” antes de prosseguir.

Segundo o Business Dictionarycustos portuários são as taxas e sobretaxas aplicadas ao navio e/ou à carga a bordo a partir de sua chegada ao porto.

Agora, ao primeiro ponto. Se eu entendi corretamente, um pacote de grande importância para o país estará estribado em estimativas sobre um dos itens considerados mais importantes do sistema. A ser isto verdade, estarão decidindo o rumo dos portos brasileiros com base em percepções que ou não encontram estribo nos fatos ou se batem contra eles. É difícil crer que esta maneira de proceder atenda ao interesse público e se aproxime do que se faz na Holanda.

Mas prossigamos. Cito novamente o Estadão:

A avaliação dos técnicos é que o custo elevado não leva em consideração a evolução tecnológica dos equipamentos de navegação. Se antes era exigido que um prático conhecesse cada pedra no fundo do porto, hoje essas informações podem ser obtidas por satélites e outros equipamentos.

Este trecho me assusta. Ele representa uma visão arcaica da segurança, segundo a qual sistemas sócio-técnicos são intrinsecamente seguros e as pessoas são um mal necessário para a sua operação. Neste modo de ver as coisas, se ocorre um acidente, é porque algum humano “podre” não fez o que deveria ter feito, ou fez o que não deveria ter feito.

Ocorre que os sistemas sócio-técnicos, como os navios e o transporte marítimo, não são intrinsecamente seguros, porque são sistemas voltados para a produção. Neste contexto, a segurança, uma das funções centrais da operação, não é dada, mas construída pelas pessoas envolvidas. Aí os práticos entram: eles ajudam a expandir o espaço de segurança das operações de navios e de portos e contribuem para viabilizar oportunidades de prosperidade que de outro modo estariam fora do alcance da infra-estrutura portuária brasileira.

Para além disto, manifesta-se aqui uma profunda ignorância sobre as operações de navios em águas confinadas. Sou capaz de apostar que estes “técnicos” não se deram ao trabalho de deixar seus escritórios para observar uma única faina de “flanelagem de navio”, talvez porque lhes pareça pouco adequado cooperar com “flanelinhas”. Para contrastar, alguns dos maiores institutos de hidrodinâmica do planeta se situam na Holanda, como o Maritime Research Institute Netherlands.

Para completar, uma contradição insanável, contida no trecho a seguir:

Dilma negociou com a Marinha a redução dos requisitos para que um prático atue nos portos. Atualmente, para que uma pessoa ganhe o status de prático, ela precisa ter operado cerca de 70 vezes por ano em um porto. Em Roterdã são necessárias apenas 20 operações.

Nem vou me deter muito nesta história de “Dilma negociou com a Marinha”, que aproxima o texto da ficção plana e rasa. Duvido muito que bastem 20 manobras por ano para qualificar um prático em Roterdã. No site da praticagem holandesa, consta que a preparação de um profissional leva de 10 a 13 meses. Mas isto é o de menos, aqui. Admita-se, por um instante, que a informação está correta, e se seguirá que o prático brasileiro está num nível de qualificação superior ao do holandês. Por que mediocrizar? A quem serve a redução dos níveis de segurança? Será mesmo do interesse público nacional sacrificar a proteção de canais, portos, cargas e navios no altar da produção?

Não tenho as respostas. Mas tenho por certo que não será por atalhos que teremos sucesso em nos aproximar de Roterdã.

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2 respostas em “AQUAVIAS BRASIL: O caminho de Roterdã e o analfabetismo marítimo

  1. O caminho de Roterdã ou o “descaminho” de Roterdã?

    Imagino como o Governo está consultando os principais envolvidos no assunto, autoridades marítimas, a praticagem, etc.

    Sem contar neste jornalismo parcial…

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